Entraves na engenharia geotécnica: artigo aborda os rottweilers da área
All for Joomla All for Webmasters
Edições
Entraves na engenharia geotécnica: artigo aborda os rottweilers da área
15659
single,single-post,postid-15659,single-format-standard,ajax_fade,page_not_loaded,smooth_scroll,,qode-theme-ver-2.2,wpb-js-composer js-comp-ver-4.11.2.1,vc_responsive

Rottweilers de tocaia

08:00 27 julho in Ponto de Vista, Site
O engenheiro civil e diretor técnico da SOTEF, Claudio Gonçalves, aborda alguns entraves na engenharia geotécnica
entraves na engenharia geotécnica

A engenharia geotécnica, em particular, a parte que lida diretamente com as fundações de estruturas, embora para muitos seja considerada uma ciência exata, pelo simples fato de estar intimamente ligada à engenharia civil, apresenta uma série de nuances, muitas vezes sutis e até de difícil percepção, que remetem obrigatoriamente a experiência pessoal e profissional (expertise), ou ainda em conjunto, ao “feeling” ou, em outras palavras, à intuição, ao pressentimento.

Voltando à questão inicial, de uma maneira geral e simplificada, considera-se ciência, um determinado campo de estudos e pesquisas de várias matérias, abrindo os limites do conhecimento já existentes para abranger as visões das diversidades em diversas áreas.

No caso específico das ciências ditas exatas, esse conceito nasceu na Europa Ocidental no início do século XVII, considerando um campo mais restrito ou previamente definido, onde tudo é direcionado à capacidade de expressões quantitativas, predições precisas e métodos rigorosos de testar hipóteses, especialmente quando envolve medições e predições quantitativas.

Baseia-se sempre na observação aprofundada dentro de um quadro temático restrito ou previamente definido, uma abordagem simples e progressiva da modelização e, sobretudo, do uso sistemático de uma lógica reducionista no sentido de manter apenas os dados e leis necessários e suficientes para explicar os fenômenos prelimimarmente observados.

Sob esse contexto e mais especificamente, vejamos o que diz a norma técnica ABNT NBR 6.122/2010 (Projeto e execução de Fundações) sobre essa questão, o que se encontra abordado preliminarmente, na abertura, logo no início dela, no item 1 na página 1, ou seja, lá está registrada a seguinte frase:

 

NOTA 1: Reconhecendo que a engenharia de fundações não é uma ciência exata e que os riscos são inerentes a toda e qualquer atividade que envolva fenômenos ou materiais da natureza, os critérios e procedimentos constantes nesta norma procuram traduzir o equilíbrio entre condicionantes técnicos, econômicos e de segurança, usualmente aceitos pela sociedade na data da sua publicação”.

 

Sob esse contexto, há de se pressupor que, se a própria norma técnica que serve de parâmetro e embasamento legal para nortear o meio técnico quanto aos procedimentos para projetos e execução de fundações, considera tal linha de raciocínio, há então de se considerar que, em engenharia de fundações, a performance de bons softwares e equipamentos de última geração jamais se sobreporão à experiência pessoal e profissional e à presença de espírito dos profissionais envolvidos, quer seja na fase de projeto, quer seja na fase de execução. Sob tal enfoque, poderíamos citar a seguinte ponderação:

 

“…um aspecto que diferencia um projeto de estruturas de um projeto de fundações é que, no primeiro, as características dos materiais de construção são definidas pelo projetista e, no segundo, trabalha-se com o solo, que é um material não fabricado pelo homem”. – Engº Urbano Rodrigues Alonso – (SEFE V – Seminário de Engenharia de Fundações Especiais), 2004.

 

Conforme já citei anteriormente em outra oportunidade, bons projetos estão sempre associados a boas ideias e estas requerem sempre “pitadas” de criatividade, estando sempre associadas à inventividade, à experiência, à inteligência e ao talento, natos ou adquiridos, para criar, inventar e inovar em qualquer campo da atividade humana. Particularmente em engenharia de fundações, preponderará sempre a experiência quanto a essa questão.

E sendo assim, há de se pressupor que cada projeto de fundações tem particularidades específicas, cujas características técnicas e geotécnicas norteiam sua análise e concepção, porém nenhum projeto de fundações pode ser considerado singular, ou seja, único, exclusivo. Sob tal contexto, podem ser registradas duas passagens clássicas deste segmento:

 

“Nenhum projeto de fundações é imexível” – Engº Luciano Décourt – (SEFE II – Seminário de Engenharia de Fundações Especiais), 1991.

 

“Na engenharia geotécnica, assim como em qualquer área do conhecimento humano, qualquer que seja o assunto, há muito mais controvérsias do que consenso. Especificamente na engenharia de fundações, não há consenso sobre praticamente nada” – (SEFE VI – Seminário de Engenharia de Fundações Especiais), 2008.

 

Embora cada projeto realmente tenha suas próprias particularidades e, de certa forma represente “a marca registrada” de quem o idealizou, deve-se observar que, para cada obra sempre poderá haver inúmeras outras soluções técnicas de engenharia que, igualmente possam ser concebidas através de “pitadas” de criatividade, e associadas à inventividade, à experiência, à inteligência e ao talento de inúmeros outros profissionais.

É justamente sob tal situação que uma série de entraves surgem, então, não raramente, quem idealiza determinado projeto, se julga inquestionável e, sendo assim, o que idealizou passa a caracterizar-se como “imexível”.

As razões para tal comportamento são diversas e vão desde questões meramente comerciais, pois que, revisões de projetos denotam tempo e horas técnicas de reanálise, e isso, em geral, custa algo mais em termos financeiros, porém nem sempre os clientes entendem que devam pagar algo a mais por isso, mesmo que lhes resulte em benefícios, a até mesmo egocentrismos e vaidades diversas e de todas as partes envolvidas, sem exceção. Eis que então, passemos a refletir:

 

“…quando ocorre o desabamento de um prédio fica-se especulando se o problema foi na fundação ou na parte desenterrada da estrutura e se a culpa foi da carga de projeto, da execução ou do material de construção. Não se questiona porque os engenheiros civis especialistas em estruturas, geotecnia e fundações e os geólogos especialistas em geologia da engenharia, não trabalharam em equipe na obra”. – Engº Nelson Aoki – Reflexões Sobre a Prática de Fundações no Brasil – USP São Carlos, 2000.

 

Na verdade, todas essas questões deveriam fluir mais naturalmente entre todas as partes envolvidas. Mais diálogos, reuniões e desprovimento de egocentrismos e vaidades em benefício de um objetivo coletivo, que seria o resultado final alcançado pelo trabalho em equipe.

Da mesma maneira que existem muitos calculistas estruturais e projetistas de fundações comprovadamente experientes, criativos e capazes, também existem em igual teor e valor, excelentes profissionais que executam obras de fundações por toda uma vida, cujo currículo alcançado ao longo dos anos lhes credencia com louvor a também opinar quando solicitados.

E por que não o fazer? Não se trata de uma questão de ética ou falta dela, e sim de ponto de vista. Falta de ética seria assim proceder as escusas, de forma sorrateira e a busca de interesses distintos daqueles que traria algum benefício técnico ou comercial a obra. Falta de ética seria enxergar algo que pudesse trazer algum benefício e não conflitasse com nenhuma norma técnica e omitir-se de emitir sua opinião profissional quando solicitado a fazê-lo.

Não podemos nos comportar como “rottweilers de tocaia”, aguardando uma oportunidade para então atacar ferozmente qualquer colega que emita uma opinião, mesmo que contrária à nossa, pelo simples fato de nos sentirmos profissionalmente “ameaçados” por algo que nem sequer sabemos o que é.

Não podemos simplesmente ficar observando o movimento de uma determinada situação e nos entrincheirarmos no aguardo daquilo que julgamos ser contrário aos nossos interesses, quer sejam pessoais ou profissionais.

Quando interagimos, conversamos e nos aproximamos de profissionais que realmente são sabedores e dominam o que se predispõem a fazer, sempre aprendemos algo e, talvez alguma coisa também ensinemos, porém quando tentamos assim proceder com profissionais limitados, de pouca experiência ou até mesmo mal-intencionados, em geral muito pouco diálogo se desenvolve e não raramente alguma rusga sempre ocorre.

São justamente esses profissionais que acreditam que seus projetos são realmente “imexíveis” e, portanto, passam a comportar-se em estratégia de defesa, como verdadeiros “rottweilers de tocaia”, sempre atentos a tudo que se passa a sua volta, porém estrategicamente à espera de alguma situação que lhes favoreça ou faculte atacar.

Esquecem-se, no entanto, que “rottweilers” não são assim, pelo contrário, são extremamente leais e determinados, não tendo por características a tocaia sorrateira, o acovardamento ou o entrincheiramento. Apresentam-se de pronto quando visualizam determinada situação que lhes exija a ação na justa medida para a resolução do problema. Enfim, resolvem a questão.

Conforme já disse anteriormente, volto a dizer aqui que em épocas de crise, tudo se “espreme” e, por consequência as margens de segurança e até a responsabilidade de alguns acabam também sendo “espremidas” e muitas vezes sequer percebidas ou avaliadas com bom senso. Partindo dessa premissa, os problemas futuros certamente tendem a aumentar, e muito. Sempre ter feito algo que deu certo em determinada época é uma coisa, que pode até ser considerada arrojo, porém em época de crise é outra totalmente diferente, pois as variáveis que favorecem o eventual surgimento de problemas aumentam consideravelmente, podendo caracterizar-se como inconsequência ou até mesmo, em determinadas situações, irresponsabilidade.

Lembrem-se que a sorte não existe, pois aquilo que chamamos de sorte, nada mais é que ter o cuidado com os pormenores. Assim sendo, não creio sinceramente que estas poucas e mal traçadas linhas que novamente por mim são aqui escritas, servirão para mudar algo no momento, até porque nem tenho essa pretensão, porém creio que servirão de referência e reflexão para que quando surgirem problemas, já se tenha um norte para que sua causa seja identificada, e saibam por onde começar a procurar.

Pergunto novamente, então: “Onde está a presença de espírito e a predisposição, características tão necessárias para se saber quando e onde intervir quando algo foge do bom senso?”. A resposta a essa pergunta deveria, no meu entender, começar a ser dada por quem contrata pelo critério do menor preço e por quem se presta a assumir por algo que desconhece a fundo.

Não podemos aceitar que as “tendências sejam tendenciosas” neste segmento, pois as consequências podem ser graves. Ainda assim, não podemos aceitar com naturalidade que nos obriguem a fazer parte da filosofia do “ó do borogodó”.

Alguns colegas até se sentem cansados por exaustivamente já terem passado por situações semelhantes no curso de suas carreiras profissionais e acreditam que nada mais há o que fazer para que tal situação seja modificada, resignando-se, porém, há de se observar que um velho ditado assim diz: “Ninguém pode se considerar assim tão velho que não acredite que possa viver por pelo menos mais um ano”.

Em síntese, creio estar fazendo novamente a minha parte e, que não acreditem no que aqui escrevo, pois não quero que me julguem ser dono da razão, mas que pelo menos leiam e reflitam, se assim julgarem que devam fazer. E novamente a vida continua…

 

Claudio Gonçalves é graduado em Engenharia Civil pelo IEEP (Instituto de Ensino de Engenharia Paulista) (1986), é diretor Técnico da empresa SOTEF – Sociedade Técnica de Engenharia e Fundações Ltda. Foi redator da Norma NBR 6.122 – Projeto e Execução de Fundações (1996) e membro da comissão de elaboração da NBR 13.208 – Ensaio de Carregamento Dinâmico (1994). Autor de diversos livros técnicos, foi também coordenador junto à ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas) da comissão de estudos para elaboração de norma técnica para Estacas Pré-Fabricadas de Concreto ABNT NBR 16.258 (Estacas Pré-Fabricadas de Concreto – Requisitos), publicada em 17 de fevereiro de 2014.

Crédito da foto: Arquivo Claudio Gonçalves

Editora Rudder

redacao@revistafundacoes.com.br