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Reportagem – Túnel Luiz Jacques - Revista Fundações
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Reportagem – Túnel Luiz Jacques

16:06 20 setembro in Edição 70, Matérias, Reportagem
Novo túnel do Joá é batizado com o nome do engenheiro Luiz Jacques de Moraes

A proposta de homenagem póstuma foi uma ação conjunta que levou em consideração a trajetória marcante e as contribuições profissionais do engenheiro para o Brasil

Por Dellana Wolney

Avaliada em 457,9 milhões de reais, a obra de ampliação e remodelação do Elevado do Joá que liga a zona sul à Barra da Tijuca no Rio de Janeiro (RJ) é mais um dos projetos que faz parte das intervenções viárias para as Olimpíadas do Rio de Janeiro 2016. A expectativa é que a obra melhore em até 35% a capacidade de tráfego entre os bairros de São Conrado e Barra da Tijuca.

O novo trecho teria fluxo somente no sentido Barra da Tijuca, entretanto já funciona com faixa reversível nos dois sentidos. Além dos dois novos túneis, paralelos aos já existentes, o projeto previa mais uma pista e uma ciclovia. A faixa para ciclistas se ligaria à Ciclovia da Niemeyer para compor o trajeto “Tim Maia”, mas o local está temporariamente interditado após o acidente do dia 21 de abril deste ano.

Erguido sobre 27 pilares, diferente da estrutura original, o novo elevado terá três áreas de acostamento e cinco metros de altura a mais que o original, permitindo que a vista do mar ainda seja apreciada pelos motoristas que fazem o trajeto. Cada recuo possui 32 metros de comprimento e aproximadamente oito de largura. As intervenções ocorrem ao longo de um trecho de quatro quilômetros, desde a Igreja de São Conrado até a Paróquia São Francisco de Paula, na Barra da Tijuca.

A Ponte da Joatinga, com 520 metros, que também faz parte da intervenção possui duas novas faixas: uma seguirá o fluxo de trânsito em direção à avenida das Américas, e a outra servirá como acesso aos motoristas com destino aos bairros de Itanhangá ou Barrinha. Há também uma terceira pista, próxima à Lagoa da Tijuca, construída sob as pontes nova e antiga, especialmente para servir de retorno no sentido do bairro Recreio.

O tabuleiro inferior e as novas pistas do Joá têm velocidade máxima de 80 km/h e o tabuleiro superior tem velocidade de 50 km/h. As vias possuem fiscalização eletrônica e é estimado que com essa nova configuração do Joá aconteça uma redução de até 60% no tempo de viagem no sentido Barra, no período da manhã. No período da tarde a redução poderá chegar a 20%, em média, no trecho do Joá, e no sentido contrário, o tempo de viagem será reduzido em 10%.

Pelas pistas em operação do Joá trafegam cerca de 85 mil veículos por dia. Devido à redução de 85% do volume de tráfego durante a madrugada, a pista em mão dupla do tablado superior deverá ser fechada toda noite, especificamente no período das 23h30 às 4h30, exceto quando houver manutenção em outras pistas.

Etapas iniciais da construção do novo Elevado do Joá
Edição 70 Reportagem Foto 06
Canteiro de obras em março 2015
Trabalhos geotécnicos

De acordo com o engenheiro e presidente da Geo-Rio (Fundação Instituto Geotécnica), Hélio Brito, nas etapas iniciais foram realizadas sondagens em cada bloco de fundação no novo Elevado do Joá, para definição da solução geotécnica mais apropriada. “No Elevado Presidente Itamar Franco foram basicamente identificados solo arenoso, rocha sã e rocha fraturada. Na Ponte da Joatinga, ao lado do Joá, encontramos rocha fraturada e no outro lado do Canal de Marapendi, solo arenoso”, descreve.

Após estas constatações, a escolha do tipo da fundação deveu-se basicamente às condições geológicas locais. Segundo Brito, foram utilizados três tipos de fundação durante a remodelação do elevado: fundação direta (sempre pinada na rocha); fundação com estaca raiz, de diâmetro 50 cm, e fundação com estaca tubada metálica, com 60 cm de diâmetro. Ele relata que, nesta etapa, o fator desafiante foi o acesso às obras de infraestrutura do elevado. “A logística para o transporte de equipamentos e materiais foi estudada detalhadamente, chegando ao ponto de algumas vezes levarmos o material na mão”.

Uma das grandes preocupações antes da obra era o cronograma de detonação para a escavação dos dois túneis de 220 m e 430 m. Elas estavam previstas para serem concluídas apenas em outubro de 2015, porém terminaram três meses antes. O cronograma inicial foi estipulado porque haveria apenas uma detonação por dia, mas no mês de janeiro de 2015 foi estabelecido que duas detonações fossem feitas.

“O túnel Paulo Cezar Marcellino Figueiredo foi importante para o acesso das vigas pré-moldadas do Elevado Presidente Itamar Franco, e em ambos os túneis tínhamos uma interferência grande com o cotidiano da cidade, com duas detonações por dia, em que foi feito o necessário: fechar os túneis do Pepino e Joá e o Elevado das Bandeiras durante 30 minutos para cada detonação”, conta Brito.

Edição 70 Reportagem Foto 07
Desemboque de um dos túneis

Para acelerar ainda mais o processo de detonação, a pista superior, sentido Barra, só era reaberta ao tráfego às 5h do dia seguinte. Já a galeria inferior reabria às 22h15m, com uma faixa reversível. Na obra dos dois túneis, o método de escavação empregado foi o NATM (New Austrian Tunnelling Method) e também houve a utilização de três jumbos de dois braços cada.

Edição 70 Reportagem Foto 08
Trabalho de sondagem do local da obra
Edição 70 Reportagem Foto 09
Escavação
Contribuição
Elevado do Joá
Edição 70 Reportagem Foto 10
Novas obras próximas ao elevado antigo

Considerado uma das mais belas vistas do Rio de Janeiro, o Elevado do Joá é também uma das mais importantes vias que simbolizam a expansão da cidade. No ano de 1968 teve início a construção do antigo elevado. Nessa época, a Barra da Tijuca ainda era praticamente um areal deserto e o acesso para a zona sul pelo bairro não tinha boas condições, então a via expressa que facilitaria o caminho Barra da Tijuca na zona sul ficou pronta dois anos após o início das obras.

No ano de 1971, os carros já estavam liberados para cruzar o Elevado do Joá, mesmo com as obras ainda em andamento. No mesmo governo da época (Francisco Negrão de Lima, 1966-1970), surgiu a pavimentação da avenida Alvorada (via 11) e a implantação da BR-101, atual avenida das Américas. Além das vias em São Conrado e Joá, houve também o início da construção do Túnel Dois Irmãos e a construção da ponte sobre o canal da Barra da Tijuca e de vias perpendiculares.

O engenheiro civil e fundador da empresa Jacminas Engenharia, Luiz Jacques de Moraes, dedicou mais de 50 anos da sua vida à engenharia, participando de grandes projetos no Brasil e no mundo. Tinha vasta experiência em escavações de rochas subterrâneas e a céu aberto; túneis rodoviários, ferroviários e metroviários; empreendimentos minerais; desmontes subaquáticos; demolições e infraestrutura urbana.

Uma das obras que marcou a trajetória profissional de Luiz Jacques de Moraes foi justamente a do Elevado do Joá. “Meu pai participou de grandes obras, desde sua formatura no ano de 1962, dentre elas os túneis do Joá em 1967, que acarretou em sua mudança definitiva para o Rio de Janeiro. Em 1981 ele fundou a Jacminas, o que permitiu sua atuação como projetista e consultor, além da prestação de serviços de instrumentação geotécnica, sismográfica e topográfica com scanner 3D”, comenta o gerente operacional da Jacminas Engenharia, Guilherme Jacques de Moraes.

Ele diz que, no atual projeto de ampliação do Elevado do Joá, Luiz Jacques de Moraes, que faleceu no dia 30 de outubro de 2015, ainda colaborou com a definição de custos e cronograma da obra, e na parte técnica forneceu os parâmetros de limites de vibração, por exemplo. Além disso, a Jacminas realizou o monitoramento da obra, com a instrumentação dos emboques, encostas, residências, pontes e viadutos existentes.

A empresa também foi responsável por controlar as vibrações provenientes das detonações para a abertura dos novos túneis, que, segundo Guilherme Jacques, foi um dos grandes desafios desta obra. “Para isso, foi feito um estudo prévio para estimar o impacto das vibrações nas residências e nos túneis existentes, calculadas com as cargas de explosivos a serem utilizadas nas detonações para cada avanço do novo túnel que seria escavado”, explica.

Ele acrescenta que os resultados do monitoramento permitiram realizar ajustes nas cargas e na metodologia para a escavação. Para o monitoramento dos recalques, foram instalados mais de 400 instrumentos em toda a área de influência da obra. Na etapa de execução dos controles, foram introduzidos instrumentos como: marcos superficiais, pinos de edificação, pinos de convergências e inclinômetros.

Atividade
Etapas iniciais da construção do Elevado do Joá no ano de 1967
Obra do Túnel do Joá
Inauguração da obra com o governador Francisco Negrão de Lima

Por ser um renomado especialista em túneis, Luiz Jacques de Moraes sempre era chamado para solucionar desafios, dar ideias e contribuir de várias formas com sua experiência. Um dos projetos recentes, no qual participou foi o dos túneis da Via Transolímpica, que tinha como interferência o Túnel Canal da CEDAE (Companhia Estadual de Águas e Esgotos). Guilherme Jacques explica que os túneis iriam se cruzar com uma diferença de 33 metros de elevação, sendo necessário um rigoroso controle das vibrações no Túnel Canal.

“Neste projeto foi proposta por ele a solução de monitoramento das vibrações com dois geofones de sacrifício, instalados dois metros abaixo do piso do Túnel Canal. Essa instalação foi realizada pela Jacminas com tubos de inclinômetro, pois os geofones deveriam estar orientados na direção das detonações, e então surgiu a ideia dos tubos para introduzir o geofone no fundo do furo com um carrinho adaptado. Ficou tudo muito bem executado, e os resultados do monitoramento foram plenamente satisfatórios”, relata.

A Jacminas também executou o controle das escavações com scanner 3D nas obras dos túneis da Transolímpica. Foram realizadas leituras a cada avanço, permitindo a verificação da topografia do túnel, da sobrescavação (overbreak) e da invasão de gabarito (underbreak), além de volumes de concreto aplicado em cada etapa do revestimento.

Homenagem

A proposta de homenagem póstuma ao engenheiro Luiz Jacques de Moraes foi uma ação conjunta de Guilherme Jacques e dos engenheiros Alberto Sayão, Francis Bogossian e Anna Laura Nunes, em nome da Diretoria do Núcleo Regional do Rio de Janeiro da ABMS (Associação Brasileira de Mecânica dos Solos e Engenharia Geotécnica), devido à notável contribuição de Luiz Jacques para a engenharia nacional, especialmente na implantação do Metrô do Rio de Janeiro, nos túneis do Elevado do Joá e nas obras atuais de expansão.

Essa carta enviada à Prefeitura do Rio de Janeiro cita as memórias de cálculo do projeto original do Elevado do Joá, datadas de 1967 que estão preservadas e comprovam a decisiva atuação de Luiz Jacques de Moraes em todas as fases da obra do elevado de dois andares, considerada inovadora para época. Reconhecendo e destacando esta contribuição profissional, a ABMS propôs que um dos novos túneis do elevado fosse batizado com o nome do engenheiro.

O engenheiro e professor da PUC-Rio (Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro), Alberto Sayão conta que a ideia da homenagem surgiu após uma conversa entre Guilherme Jacques de Moraes e Anna Laura Nunes. A sugestão também foi apresentada ao ex-presidente da ABMS e do Clube de Engenharia, Francis Bogossian que coincidentemente teria uma audiência com o Prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes no dia seguinte e disse que poderia ser o representante desta proposta.

“O melhor mensageiro que poderíamos ter, por isso, corremos para preparar o texto da carta-proposta. Felizmente, contamos com a compreensão das autoridades e essa homenagem foi bem recebida. Pelos bons serviços prestados por ele à cidade, como engenheiro de túneis, o tributo é muito merecido”, completa a professora da COPPE-UFRJ (Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa em Engenharia – Universidade Federal do Rio de Janeiro), Anna Laura Nunes.

Homenagem do DNPM (Departamento Nacional de Produção Mineral) ao pai de Luiz Jacques de Moraes, o professor Luciano Jacques de Moraes na Universidade Federal de Ouro Preto, juntamente com a irmã Elisa e o irmão Sérgio
Edição 70 Reportagem Foto 24
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Personalidade espontânea
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Inauguração do Túnel Luiz Jacques de Moraes. Da esquerda para a direita: Regina Braga Jacques de Moraes, Anna Laura Nunes, Alberto Sayão e Guilherme Jacques de Moraes

Uma semana antes da inauguração, a solicitação foi confirmada e o túnel passou a se chamar “Túnel Engenheiro Luiz Jacques de Moraes”. Guilherme Jacques ressalta que a família se sente muito orgulhosa e agradecida à ABMS, em especial a engenheira Anna Laura e ao engenheiro Francis Bogossian pelo empenho para que isso acontecesse, e pontua que é um sonho passar pelo túnel “dele”, obra que trabalhou intensamente para construir e ajudar a manter.

“Não tenho a menor dúvida de que o Túnel do Joá foi uma de suas obras preferidas, não tendo homenagem melhor que esta por parte da ABMS e da Prefeitura do Rio. Posso destacar sua dedicação, seriedade e honestidade, buscando sempre com um bom diálogo e muita simplicidade solucionar situações complexas e disseminar seus conhecimentos com outros colegas de profissão. É uma grande responsabilidade dar sequência a todo esse trabalho. Com certeza, ele deixou uma grande obra para todos nós e para a engenharia brasileira”, afirma.

Os profissionais que tiveram a oportunidade de trabalhar e conviver com Luiz Jacques de Moraes são unânimes ao ressaltar a sua genuinidade. “Tive a oportunidade de trabalhar bastante tempo com o Luiz e conhecer bem a figura única que foi. Alguém com tamanha competência e que tanto fez pela cidade do Rio de Janeiro e pela engenharia tuneleira do Brasil, não poderia ficar apenas na lembrança, tinha de ter uma homenagem à altura”, afirma Anna Laura Nunes.

Ela recorda de um detalhe que marcava a sua personalidade simples. “Ao contrário do que acontece com a maioria dos engenheiros, Luiz não gostava que ninguém o chamasse de Dr. Luiz. Era ‘Seu Luiz’ para todo mundo. Um profissional com o gabarito dele continuava simples e sempre com um sorriso no rosto, mesmo diante dos maiores problemas, que ele via apenas como mais um desafio a ser encarado com disposição e competência, sempre”.

Na cerimônia de inauguração do túnel, além do professor Alberto Sayão, estiveram presentes Anna Laura Nunes e Guilherme Jacques. “Luiz Jacques de Moraes foi sem dúvida um dos maiores engenheiros de túneis do Rio de Janeiro. Participou ativamente da produção do livro Túneis do Brasil e foi homenageado pelo CBT (Comitê Brasileiro de Túneis) na ocasião de lançamento deste livro. Então, é um tributo justo a um grande nome da engenharia brasileira”, finaliza o engenheiro Alberto Sayão.

Edição 70 Reportagem Foto 27
Família do engenheiro Luiz Jacques de Moraes com o prefeito do Rio de Janeiro Eduardo Paes
Edição 70 Reportagem Foto 28
Equipe de técnicos e engenheiros da Jacminas Engenharia com Guilherme Jacques, Anna Laura Nunes e Pedro Jacques de Moraes
Créditos

Créditos das fotos 01 a 05: Divulgação Geo-Rio

Créditos das fotos 06 a 13: Arquivo Alberto Sayão

Créditos das fotos 14 a 25: Arquivo Jacminas

Créditos das fotos 26, 27 e 28: Arquivo Anna Laura Nunes

Editora Rudder

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