Geotecnia, vulnerabilidade socioambiental e a engenharia humanitária
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Geotecnia, vulnerabilidade socioambiental e o papel da engenharia humanitária

08:00 06 agosto in Matérias, Site
A engenheira civil Lucianna Herbst fala neste artigo sobre as condições geológicas de locais com poucos investimentos
geotecnia

A evolução da urbanização no Brasil é caracterizada historicamente pela desigualdade no acesso a bens e serviços públicos, originando inadequações e má distribuição de serviços e infraestrutura no ambiente urbano.

Os dados mais recentes de 2017 do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) demonstram que 85% da população brasileira residem em áreas urbanas e que cerca de 50 milhões de pessoas, o equivalente a 25% da população, vivem na linha de pobreza, de acordo com o critério adotado pelo Banco Mundial para países emergentes de renda média-alta, categoria à qual inclui o Brasil.

Uma população que vive nesta situação de pobreza busca terrenos mais baratos que lhes garantam o direito à moradia segura e digna. No entanto, estas áreas economicamente acessíveis se caracterizam por serem as mais vulneráveis e indesejadas pelas demais classes da sociedade ou em zonas periféricas de expansão urbana.

Assim, devido a falta de um controle integraldo poder público sobre o correto uso e ocupação do solo nas cidades e, dentre outros motivos, da falta de oferta de alternativas habitacionais legais, as ocupações irregulares há muito deixaram de ser ocorrências esporádicas e se tornaram a regra do processo de urbanização e ocupação territorial no contexto brasileiro.

E é justamente na parcela da sociedade menos favorecida que se evidenciam recorrentes problemas geológico-geotécnicos associados a ocupações nas margens dos corpos hídricos e várzeas sujeitas à inundação, em encostas que jamais poderiam ser ocupadas ou em áreas até menos declivosas e passíveis de serem ocupadas, mas contanto que fossem utilizadas e respeitadas técnicas construtivas adequadas à suscetibilidade local, o que não corresponde à realidade brasileira.

Associando-se este cenário da urbanização ao aumento expressivo da intensidade e da frequência de eventos climáticos extremos tem-se consequentemente o aumento das situações de vulnerabilidade tanto social quanto ambiental. A resposta da natureza às intervenções humanas frequentes é a necessidade dessa de reestabelecer-se através de um novo equilíbrio do meio ambiente, o que ocorre pela manifestação de fenômenos naturais como movimentos de massa, inundações/enchentes, erosão e demais colapsos do solo.

No Brasil, observamos que os principais fenômenos correlacionados a desastres naturais são os deslizamentos e as inundações. Ainda que os maiores prejuízos (em economia e saúde) se originem nas inundações, são os deslizamentos os causadores de um maior número de perdas de vidas.

A remoção da vegetação, a inadequada terraplenagem através da execução de cortes e aterros instáveis para implantação de edificações e vias de acesso igualmente frágeis, a ausência de sistemas adequados de drenagem das águas pluviais e descarte de águas servidas, a deposição de lixo nas encostas, dentre outros, são todos fatores de ação antrópica que em conjunto aos fenômenos de ordem natural, impactam na frequência e magnitude dos deslizamentos. É necessária a tentativa de reversão deste quadro.

O gerenciamento de riscos é uma das ferramentas de gestão urbana que objetiva reduzir, prevenir e controlar permanentemente os riscos de desastres nas áreas urbanizadas.

As etapas envolvidas na gestão de riscos (prevenção, mitigação, preparação, alerta, resposta, reabilitação, reconstrução e desenvolvimento) devem estar presentes em três momentos distintos: antes, durante e após os desastres. No entanto, nota-se que as ações continuam se concentrando basicamente no pós-evento, com a execução de obras de engenharia apenas remediadoras. A política institucional atual continua voltada mais para ações de reconstrução que de prevenção.

É de conhecimento geral que a prevenção se constitui na melhor forma de se antecipar a um problema e evitar que novos desastres ocorram. Entretanto, sem um diagnóstico prévio da percepção de risco por parte dos moradores de áreas de risco e práticas diárias desta população, ações de cunho preventivo muitas vezes se tornam ineficientes.

Esta análise da percepção de risco ocorre através de um levantamento de como a comunidade local se relaciona com os desastres, o que sabem sobre eles, como se comportam diante dos riscos, como interagem com os órgãos governamentais envolvidos, além de possibilitar o entendimento do motivo pelo qual as pessoas vivem em áreas de risco.

A participação da comunidade nas ações para redução de riscos deve ser buscada por meio de ações socioeducativas para uma troca de conhecimento entre técnicos e moradores sobre o problema dos desastres, o estreitamento de laços entre a comunidade e o governo e o empoderamento da população para transformação do meio em que vivem de forma a melhorar a qualidade de vida de todos os envolvidos.

Neste âmbito, a análise, proposição e execução de soluções que subsidiem uma adequada e sustentável ocupação de nossas cidades, e a interação com as comunidades estão presente na pauta dos diversos núcleos da ONG (Organização Não Governamental) Engenheiros Sem Fronteiras espalhados pelo Brasil.

Acreditamos na importância da engenharia para o desenvolvimento social e atuamos como protagonistas desta transformação por meio de projetos voluntários que incluem vistorias geotécnicas em áreas de risco, estudos para elaboração de soluções em áreas e comunidades onde a engenhariageotécnica é inexistente e, principalmente, ações de cunho educacional para crianças e adultos relacionadas à consciência ambiental e de percepção de riscos geotécnicos.

A ONG acredita que é possível transformar o modo como o ser humano se relaciona com o próximo e interfere no ambiente. E é por meio de uma engenharia mais humana e focada na interação do homem com a natureza que pode-se reduzir significativamente o impacto negativo que causa ao planeta.

Autora

Lucianna Herbst é engenheira civil pela UDESC (Universidade do Estado de Santa Catarina), mestre em Infraestrutura e Geotecnia pela UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina). Diretora de projetos da ONG Engenheiros Sem Fronteiras – Núcleo Joinville (SC) e sócia-diretora da empresa Elmo Engenharia.

 

Coordenador da seção “Geotecnia Ambiental”:

Marcio Fernandes Leão é geólogo pela UFRJ, possui MBA (Master of Business Administration) em Gerenciamento de Projetos pela USP (Universidade de São Paulo).  É mestre em Geotecnia pela UERJ (Universidade do Estado do Rio de Janeiro), mestre e doutorando em Geologia de Engenharia e Ambiental, pela UFRJ. Atualmente é pesquisador do LEMETRO (Laboratório de Experimentos em Mecânica e Tecnologia de Rochas) da UFRJ.

Crédito das fotos: Arquivo Lucianna Herbst

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