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Entrevista – Lavoisier Machado - Revista Fundações
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Entrevista – Lavoisier Machado

16:12 26 setembro in Edição 70, Entrevista, Matérias
Dedicação e persistência como marcas de uma carreira

A trajetória do engenheiro civil Lavoisier Machado começa na cidade de Jundiaí, no interior de São Paulo, no ano de 1953, onde nasceu e cresceu. Foi por influência de seu pai que decidiu prestar o vestibular para engenharia civil. Durante a graduação ele trabalhou em diferentes empresas, desenvolvendo as atividades de desenhista-projetista, assistente-técnico, agrimensor e, posteriormente, como engenheiro civil.

Em 1980 ele foi chamado para trabalhar na empresa Maccaferri do Brasil, onde permanece até hoje e se tornou um dos principais propagadores da utilização dos geossintéticos. Sua atuação no setor também lhe rendeu um convite para presidir a IGS (Associação Brasileira de Geossintéticos) e sua gestão de quatro anos foi marcada por muito trabalho e conquistas. Além disso, ele também foi o responsável pela organização de um dos principais eventos do setor, fez palestras para estudantes e profissionais da área e ainda batalha pela difusão dos gabiões e geossintéticos no País. Na entrevista a seguir retratamos um pouco da sua história profissional.

O engenheiro civil Lavoisier Machado é um profissional transformador: desde a luta pelo crescimento e divulgação dos geossintéticos no Brasil à sua atuação na Maccaferri e na IGS

Por Dafne Mazaia

Colaborou: Carolina Carvalho

Edição 70 - Entrevista - Foto 00
O engenheiro civil Lavoisier Machado
Como surgiu o interesse pela engenharia?
Edição 70 - Entrevista - Foto 01
O início de sua vida escolar

Surgiu a partir de conversas com um grande amigo para que eu fizesse o curso de agrimensura. Na época eu estava com 14 anos e ele, um ano mais velho, e eu já fazia este curso. Entre 1966 e 1969 fiz esse curso e depois comecei a trabalhar como agrimensor – primeiramente em atividades de cálculo e desenho, e depois, em campo, na atividade propriamente dita –, ambas as experiências em São Paulo, que duraram aproximadamente dois anos. Concomitantemente, iniciei um curso pré-vestibular no Anglo que, na época, possuía uma boa reputação e resultado com os seus alunos, porém somada à minha atividade escolar também estava a minha extensa jornada de trabalho: das 7h às 18h. Assim, um tempo depois decidi abandonar o cursinho e continuar apenas trabalhando.

Depois de todas essas vivências, no final do ano de 1972 prestei vestibular, e nesse período da minha vida a engenharia já havia me conquistado. Decidi cursar engenharia civil também influenciado pelo meu pai que, embora tivesse como formação apenas o primário completo, sempre foi estudioso e gostava muito de engenharia, principalmente da vertente mecânica, tanto que no decorrer de sua vida desenvolveu vários inventos, chegando a patentear alguns que, infelizmente, não foram devidamente aproveitados. A partir da influência e do incentivo, ingressei na USF (Universidade São Francisco) (nome atual), antes chamada de Faculdade de Engenharia Industrial e Civil de Itatiba (São Paulo).

Conte-nos um pouco sobre a sua formação acadêmica.

Como já comentei, sou graduado em engenharia civil. Ao longo de minha vida profissional fiz vários cursos de curta duração nas áreas de geotecnia, hidráulica e geossintéticos, alguns deles em países da América Latina e também na Itália. Também estudei geossintéticos com a professora Delma de Mattos Vidal, no ITA (Instituto Tecnológico de Aeronáutica). Tenho um MBA (Master of Business Administration) em marketing pela FGV (Fundação Getulio Vargas), que me permitiu somar os meus conhecimentos de engenharia civil com as habilidades de marketing para desenvolver novos horizontes na Maccaferri.

Edição 70 - Entrevista - Foto 02
Lavoisier Machado ao lado seus pais
Como foi o início da sua carreira profissional?

Minha primeira experiência profissional foi na empresa Consult, em Campinas (SP), como desenhista de levantamentos topográficos. Depois vim para São Paulo, já formado como agrimensor e trabalhei na empresa Agriplan, também realizando cálculos e desenhos de levantamentos topográficos. Em seguida ingressei na empresa Cota Engenharia, onde tive a oportunidade de trabalhar em campo como agrimensor, atuando em muitos levantamentos planialtimétricos cadastrais na cidade de São Paulo, principalmente na zona leste.

Edição 70 - Entrevista - Foto 03
O engenheiro, no início de sua carreira, desenhando projetos

Essas foram experiências muito significativas para um início de carreira, especialmente porque quando atuei nesta área, os trabalhos eram mais manuais, ou seja, os cálculos e desenhos eram praticamente feitos à mão.  Hoje, com o avanço da tecnologia, esse trabalho se tornou muito mais rápido e preciso, porém sou feliz por ter aprendido e atuado no método convencional.

Durante a faculdade de engenharia civil também tive outras experiências profissionais em Jundiaí (SP). Trabalhei na Sotafe e na Construtora Andrade Gutierrez como assistente-técnico, dando apoio à área técnica para o projeto e a execução do novo sistema viário da cidade de Jundiaí. Em seguida, atuei na DERSA (Desenvolvimento Rodoviário S.A), na divisão SETEC (Serviços Técnicos) também como assistente-técnico e desenhista-projetista. Durante essa experiência fiz o projeto de algumas alças de trevo, acessos para postos de serviço e indústrias.

Próximo de concluir a minha graduação, enquanto ministrava algumas aulas de topografia em um colégio técnico, fui convidado por um amigo a trabalhar como desenhista projetista de obras civis em uma empresa italiana que estava instalada no Brasil havia apenas dois anos, produzindo gabiões, tecnologia praticamente inédita no País. Esta empresa é a Maccaferri, que ingressei no início  de 1980 e onde estou até hoje.

Conte-nos um pouco sobre suas experiências na empresa Maccaferri.

Pouco depois de ingressar na empresa, entre 1981 e 1985 trabalhei na função de “responsável de área”, ou seja, responsável técnico-comercial por uma área geográfica, e minha principal atividade era desenvolver estudos de viabilidade técnica-econômica para clientes da esfera pública e privada.

Em 1984, o diretor-presidente da Maccaferri, engenheiro Stefano Orsi (ainda hoje nessa função) que sempre soube do meu desejo de conhecer novos países, novas culturas e ter oportunidades no exterior me fez uma excelente e desafiadora proposta: trabalhar na área da exportação da empresa. A nova função me fazia estar fora do País por mais de 120 dias/ano, desenvolvendo atividades técnicas como visitas a locais com problemas geotécnicos e/ou hidráulicos, elaboração de estudos técnicos e acompanhamento do trabalho da área comercial, por meio de representantes e distribuidores.

Foi um grande desafio a ser cumprido, pois na época em questão a Maccaferri – que até então era Maccaferri do Brasil –, passou a ser responsável por todo o mercado da América Latina. Neste período, que durou seis anos, tive o prazer de conhecer todos os países da América do Sul, da América Central e alguns do Caribe.

Em 1989, recebi um novo convite da empresa, desta vez para ser gerente- técnico-comercial do território brasileiro. Iniciamos o trabalho com uma equipe de cinco engenheiros, uma filial comercial em Curitiba (PR), outra em Belo Horizonte (MG). Cinco anos depois já tínhamos também filiais em Recife e Rio de Janeiro, além de uma equipe com mais de dez engenheiros civis. Foi uma época muito difícil em termos comerciais, pois convivíamos com inflação galopante.

Outra passagem marcante desse período é que a Maccaferri do Brasil foi a primeira dentre as outras consorciadas no mundo a se interessar pelo trabalho com geossintéticos. Essa percepção por parte de nossa equipe técnica passou a atentar que em muitas situações, as necessidades dos nossos clientes iam além dos gabiões. Foi então que vislumbramos essa oportunidade e começamos também a distribuir geotêxteis e outros tipos de geossintéticos, como geogrelhas, geomantas, geotêxteis e outros geossintéticos.

Em 1994 ficou claro para a Maccaferri a necessidade de uma divulgação maior técnica-aplicativa destas soluções em toda a América Latina. Foi quando desenvolvemos um estruturado e inovador programa de divulgação, de gabiões e de geossintéticos.

Aproveitei toda a minha vivência na área para elaborar palestras e cursos destinados a estudantes e profissionais do setor. Nesse momento dei início a uma nova fase da minha trajetória profissional na empresa, agora na função de gerente de desenvolvimento de mercado.

Quando iniciei este trabalho, o Brasil possuía aproximadamente 135 habilitadas para o curso de engenharia, e ao finalizar esse projeto em 2005 cerca de 300 cursos de graduação nessa especialidade já estavam disponíveis. Eu me orgulho de entre 1995 e 2005 ter visitado mais de 90% das faculdades realizado mais de 800 palestras universitárias neste período. Além disso, realizamos muitas palestras e cursos em várias associações de engenheiros, órgãos públicos e empresas privadas. E isso foi extremamente gratificante, pois além da vivência também fiz muitos amigos, que são ícones em suas respectivas áreas, como geotecnia, hidráulica e engenharia ambiental. São muitos nomes, mas não vou citá-los para não cometer algum erro de esquecimento e cometer então uma grande injustiça. Durante este período tive a colaboração, nas atividades de pré e pós-eventos da sra. Katia Fonseca, a quem quero muito agradecer.

Foram dez anos de atuação nessa função, trabalhando com um projeto pioneiro, que trouxe benefícios para a Maccaferri, mas acima de tudo para mim mesmo, principalmente em termos de crescimento pessoal e profissional, pois nada é mais gratificante do que poder transmitir nosso conhecimento para os outros.

Edição 70 - Entrevista - Foto 04
No início de sua vida profissional como agrimensor
Como foi a sua atuação nas associações do setor?
Edição 70 - Entrevista - Foto 05
Lavoisier Machado durante um evento da área

Comecei como componente do comitê técnico da ABINT (Associação Brasileira das Indústrias de Não Tecidos e Tecidos Técnicos), o que me levou a uma maior proximidade com os geossintéticos. O comitê da ABINT é formado por várias empresas fabricantes de geossintéticos, que discutem ações para fortalecer e fomentar o mercado. Concomitantemente a essa participação eu iniciei minha colaboração na IGS-Brasil, em meados dos anos 2000 como secretário da associação.

Logo depois, entre os anos de 2003 de 2007, nas gestões do professor Benedito de Sousa Bueno, a IGS-Brasil ousou pleitear a realização do Congresso Internacional de Geossintéticos no Brasil. Foi um período muito bom, quando aprendi muito com ele, uma das pessoas mais íntegras e afáveis com quem trabalhei.

Em seguida, entre os anos de 2007 a 2011 tivemos a gestão do professor Maurício Ehrlich quando atuei como vice-presidente. Durante esse período, nós tivemos o privilégio de tornar realidade o IX Congresso Internacional de Geossintéticos em maio de 2010, no Guarujá (SP).

Nesse período, como vice-presidente da associação também fui o responsável pela organização da feira paralela ao congresso, que foi um sucesso com mais de 70 expositores dos cinco continentes. Para essa empreitada contei com a  grande ajuda de uma profissional que conheci e trabalhei durante essa gestão e que gostaria de também deixar o meu agradecimento a Sra. Carolina Carvalho, atual secretária da IGS.

Depois da gestão do professor Maurício Ehrlich fui convidado a presidir a associação por dois anos. Fiquei um pouco relutante, mas no final decidi aceitar, e confesso que foi um grande desafio, mas graças a Deus e aos companheiros de diretoria, conseguimos algumas importantes realizações para a associação.

Outra experiência desafiadora e gratificante foi junto a ABMS (Associação Brasileira de Mecânica dos Solos e Engenharia Geotécnica). Ao final de 2004, o então presidente recém-empossado, o engenheiro civil Alberto Sayão, a quem eu tenho uma grande admiração, me convidou para ser um colaborador da Diretoria Nacional, principalmente nas questões de divulgação interna e externa da associação, assim como em ações de relacionamento com os sócios-corporativos.

Para a minha total satisfação, esta colaboração dura até hoje, pois os sucessivos presidentes, os engenheiros Jarbas Milititsky, Arsênio Negro Jr., e André Assis também aceitaram a minha colaboração.

Muito me orgulham algumas das conquistas deste trabalho, como a estruturação e ampliação dos benefícios dos sócios corporativos; a elaboração de um guia de normas para os expositores nas exposições técnicas paralelas aos congressos e o aumento significativo do número de sócios corporativos neste período.

Como você avalia o aprendizado de conciliar essas funções?

Nos quatro anos de gestão conduzi minhas funções na Maccaferri, e na IGS-Brasil de forma totalmente independente e ética. Foi uma gestão muito desafiadora, pois um dos principais objetivos era potencializar a associação, torná-la mais profissional e trazer algumas coisas novas para a IGS e isso foi conquistado.

Ainda em relação a conciliar as funções é interessante notar que na empresa fazemos parte de um contexto hierárquico com uma linha definida. Já na IGS, principalmente como presidente, é preciso conviver com posicionamentos diferentes, opiniões diversas e fazer com que elas convirjam.

Também a experiência que tive na ABINT foi desafiadora, mas ao mesmo tempo gratificante, pois sei que consegui fazer com que os associados entendessem o seu papel dentro do grupo e as atividades que cabiam a cada um, porém sempre de uma forma amigável e satisfatória para todos. Foi no período em que fui coordenador do Comitê Técnico de Geossintéticos que conseguimos reunir 26 ícones da área e editar o Manual Técnico de Geossintéticos, obra com mais de 500 páginas e referência no setor.

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Durante uma palestra na EESC (Escola de Engenharia de São Carlos da Universidade de São Paulo), com o professor Benedito Bueno
Qual avaliação faz da sua trajetória até aqui?
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Lavoisier Machado durante o REGEO, em 2003, na cidade de Porto Alegre (RS)

Durante esses 38 anos, muitos foram os desafios e obstáculos superados, e isso me traz um imenso orgulho. Eu tenho muita satisfação quando sou cumprimentado fora da Maccaferri com um sorriso largo, com um sentimento de respeito e isso é muito gratificante. Considero que tenho uma trajetória profissional vencedora e que muito serviu para a minha vida pessoal.

Hoje estou com 62 anos, trabalho com algo que satisfaz, que é passar o meu aprendizado e minhas experiências para outros profissionais. Também tenho outros objetivos profissionais fora da área da engenharia, aos quais eu já estou me dedicando e que são os negócios da família.

Com a experiência que possui quais são suas perspectivas para a engenharia nacional?

Acredito que engenharia brasileira não carece de predicados técnicos, pois temos profissionais muito competentes, com conhecimentos reconhecidos mundialmente, porém vejo que o profissional brasileiro da engenharia precisa participar mais da “vida” de seu país. A nossa engenharia representa mais da metade do PIB (Produto Interno Bruto) do Brasil, e mesmo com toda essa relevância noto (infelizmente) um desligamento de alguns de nossos profissionais nessa questão. E não digo isso só em termos políticos, mas também engajados com questões relevantes para a sociedade brasileira. Aqui no Brasil temos bons exemplos desta atuação como a OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), que participa ativamente das grandes decisões do País. Acredito que a engenharia teria muito mais força para fazer valer seus princípios se participasse mais das decisões de desenvolvimento do Brasil.

Especificamente com relação à engenharia geotécnica vejo que os profissionais brasileiros não devem nada aos geotécnicos de qualquer parte do mundo e são muito admirados fora do Brasil.

Especificamente na área dos geossintéticos, o potencial brasileiro é imenso. Acredito que ainda não seja utilizado nem mesmo 10% da potencialidade desse mercado. Todavia, é um processo que realmente leva tempo, e que necessita da passagem pelo âmbito acadêmico.

Atualmente, embora tenhamos cerca de 500 universidades habilitadas para o curso de engenharia civil, ainda em poucas delas são estudados os geossintéticos. E por isso, lamento não ter conseguido durante a minha gestão na IGS-Brasil, colocar em prática o projeto “Educando Educadores”, que objetiva ministrar cursos aprofundados de geossintéticos direcionados aos docentes da graduação, mas sei que a gestão atual está num processo de continuidade conseguindo tornar isso real.

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O engenheiro durante o 4º Encontro Anual da IGS Brasil, ao lado de Clovis Benvenuto
O que poderia destacar como referências positivas do setor?

 Hoje temos várias obras de extrema importância no Brasil em que os geossintéticos estiveram presentes, em algumas até protagonistas. E por isso não poderia deixar de mencionar e elogiar as empresas fabricantes destas soluções, já que trabalham para aprimorar os produtos, as técnicas de aplicação e de projeto. Sem esse esforço, o uso e o desenvolvimento técnico-científico dos geossintéticos ficaria muito a desejar se comparado com o que já foi feito até hoje.

Aqui também poderia citar muitos nomes de profissionais do setor que admiro. Professores e pesquisadores da área de geossintéticos, mas para não esquecer algum e falhar com isso prefiro, de forma representativa, usar como exemplo todos os autores do “Manual Brasileiro de Geossintéticos”, cuja primeira edição foi lançada em 2004.

Conte-nos um pouco sobre sua trajetória familiar.

Sou filho único e meus pais já faleceram. Meu pai há mais de 20 anos e minha mãe há dez anos. Meu pai era de ascendência suíça e portuguesa, e minha mãe tinha ascendência síria. Eu me casei aos 27 anos com Maria Helena. Estou casado há 35 anos e, com certeza, sem sua dedicação, companheirismo e amor não teria chegado onde cheguei. Tenho dois filhos: Bruno, o mais velho, que está terminando o curso de administração de empresas e há muito tempo trabalha em nosso negócio familiar e Caio, o mais jovem que se gradua este ano em engenharia de materiais. Para encerrar esta entrevista tenho a obrigação de dizer que se eu tive sorte em um aspecto da minha vida, certamente foi com o meu casamento e com minha família, da qual tenho muito orgulho.

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Lavoisier Machado junto com sua família
Edição 70 - Entrevista - Foto 11
O engenheiro civil com a sua esposa

Editora Rudder

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