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Demolir para inovar

11:33 16 maio in Matérias, Site
Apesar de precisar de investimentos e mão de obra especializada, essa vertente pode trazer grandes benefícios
demolição em obras

Por Dellana Wolney

A construção de edifícios de concreto é um sinal de progresso, porém os projetos de habitação em extinção, os shopping centers desativados e os projetos urbanos pouco conhecidos são edificações condenadas ao abandono após cumprir a sua finalidade. O concreto permanece ocupando mais espaço do que poderia ser um futuro empreendimento.

Para solucionar este problema, atualmente a construção civil tem tido uma nova abordagem, priorizando a sustentabilidade. Apesar de a atividade não ser ainda tão intensa no Brasil, a demolição de edificações, considerada um ramo da construção civil é muito utilizada em países que demandam mais áreas para construção, como o Japão, que tem até uma lei de zoneamento e controle das edificações, determinando que prédios com mais de 100 m de altura tenham vida útil máxima de 35 anos. Depois disso, podem ser demolidos.

A engenharia de demolição consiste, na retirada, desmonte, desmantelamento ou desmoronamento parcial ou integral de elementos que constituem um determinado projeto, com a finalidade de aproveitamento de espaços, ou resolução de problemas com equipamentos obsoletos para estruturas e projetos que já foram ultrapassados em sua vida útil ou degradados pela ação das intempéries.

Embora seja uma forma ideal de criar espaço para novas edificações, a execução de uma demolição precisa de conhecimento técnico, assim como o projeto de construção. O professor dos cursos de Engenharia Civil e Arquitetura do ENIAC, Allan Miranda Pereira explica que todo serviço de engenharia exige uma técnica que deverá ser seguida para o bom funcionamento da edificação, inclusive no que diz respeito a pôr abaixo uma edificação antiga.

“Os trabalhos de demolição englobam um conhecimento técnico e uma preparação e organização sequencial de cuidados pertinentes à segurança dos integrantes envolvidos na operação, bem como a vizinhança e suas particularidades em função de cada trabalho a ser realizado. O planejamento na engenharia de demolições pode ser compreendido com algumas sequências: justificativa da demolição, avalição estrutural, documentos e alvarás, planejamento, execução, remoção dos materiais e reciclagem”, explica.

As demolições estão muito atreladas às ações que influenciam diretamente ao conhecimento dos materiais de construção, bem como as particularidades estruturais, e comportamento de rigidez, além de um plano de prevenção e gestão voltado para o desmonte ou desconstrução. Nos projetos deve constar a técnica escolhida e a região de interferência para obedecer a sequência lógica do desmonte. Esta condição é passível de ser representada graficamente e geometricamente, por meio de projetos de engenharia, como por exemplo, o projeto de locação de equipamentos para içar de peças, conhecido por “Projeto de Rigging”.

O professor de engenharia civil e arquitetura do ENIAC, Gilson Barros enfatiza que as principais técnicas de demolições são: mecanizada, térmica, com uso de explosivos, processos abrasivos, químicos ou manuais. “O destaque é a demolição mecanizada que é utilizada para obras com maiores dimensões. É uma técnica que gera agilidade e segurança aos operários. Normalmente os equipamentos utilizados são: escavadeiras giratórias, pinças esmagadoras e martelos demolidores”, descreve.

Especialização

A especialização em engenharia de demolição no Brasil ainda é pouco discutida, aqueles que querem se aprofundar no assunto precisam buscar conhecimentos fora do País ou por meio das experiências profissionais. O professor José Carlos Guerra acredita que a prática e a especialização neste campo ainda sejam negligenciadas, porque a área territorial apresentada no Brasil é grande, então as particularidades ou interesses pela técnica de demolição ficam mais visíveis nos grandes centros, em que o espaço para novos empreendimentos é bem disputado.

“É importante que estes cursos sejam desenvolvidos para melhorar as atividades neste segmento, formando profissionais especializados, desta forma a especialização poderá ser muito mais aproveitada em função dos materiais empregados e das particularidades de cada estrutura, levando em conta as normas construtivas, materiais disponíveis, intempéries e equipamentos para cada País. Temos profundos conhecedores e indivíduos capacitados para ministrarem este tipo de especialização”, opina.

Outro motivo pelo qual a demolição ainda seja pouco utilizada, é que as construções antigas eram feitas, em geral, de alvenaria estrutural, ou seja, com tijolos maciços, e paredes grossas (de aproximadamente 25 a 30 cm de espessura). A arquiteta da empresa AGN – Arquitetura e Interiores, Alessandra Garcia Nabuosuke explica que essas alvenarias são muito resistentes, além de trazer certo conforto ambiental ao espaço, fazendo com que os arquitetos em particular prefiram manter essa estrutura.

“Antigamente as leis de recuos dos terrenos e leis de uso e ocupação do solo não eram severas como hoje. Para se aproveitar melhor o terreno, a ‘casca’ da construção é mantida, fazendo-se apenas modificações internas. Com isso, usufrui-se melhor das construções, também utilizando procedimentos de ‘retrofit’ de construções já erguidas, principalmente em casos de imóveis com algum nível de tombamento de patrimônio”, esclarece.

A designer de interiores, Perla Lopes exemplifica esta questão com o Rio de Janeiro (RJ), que há mais de 100 anos é palco de um embate entre preservacionistas dos prédios e instituições históricas, e aqueles que defendem demolições e intervenções para a modernização e expansão da cidade. “Além de possuir inúmeras construções tombadas pelo Patrimônio Histórico, quando há a aprovação de alguma demolição, o País depara-se com manifestações sociais em forma de protestos, a fim de coibir essa ação, o exemplo mais recente foi o Museu do Índio que seria tombado para a revitalização do entorno do Estádio do Maracanã”, conta.

Papel do arquiteto

O arquiteto tem uma visão ampliada do espaço e sua funcionalidade. Dependendo da situação, com a diminuição de um espaço, se ganha em funcionalidade em outros cômodos adjacentes. Uma demolição interliga espaços, amplia a visão de um todo e abre possibilidades, que variam de um projeto para outro.

“Utilizo muito a demolição para residências em estilo ‘americana’, que interligam a cozinha e sala de estar pela demolição da parede entre elas ou até mesmo para a construção de ‘passa-pratos’. Às vezes, a mudança da localização de uma porta contribui muito para o maior aproveitamento do espaço, dependendo da nova função. Demolição de paredes para projetos corporativos também é uma excelente opção quando se trata da integração de todos os funcionários em um só espaço”, exemplifica Nabuosuke.

O arquiteto pode idealizar uma demolição em projeto, visando o reaproveitamento ou reciclagem de componentes, já que, segundo empresas de demolição no Brasil, numa demolição obtem-se no máximo 40% de material reaproveitado. Diferente da demolição, em que os resíduos vão para aterros sanitários, levando em conta procedimentos em atendimento à legislação (alvarás, licenças, laudos etc.).

Um dos laudos é de vistoria cautelar, ferramenta gerencial que evidencia as características dos imóveis vizinhos, atestando o estado de uso e conservação das edificações, interferências urbanas e circulação de veículos, diminuindo reclamações que ocorrem durante e após as obras. Essa função seria de responsabilidade da engenharia, que prevê na NR18, procedimentos de segurança para execução das demolições, com o intuito de diminuir ruídos, poeiras, batidas, esmagamentos, contaminações ou quedas.

Reciclagem

O setor da construção civil desponta na lista dos maiores consumidores de matérias-primas não renováveis, devido a esta grande utilização, a atividade é responsável na categoria de aumento do consumo energético, emissão de gases e geração de resíduos. O crescimento populacional de forma geométrica impõe constantes construções e adaptações de infraestrutura e utilização de materiais, mas vale lembrar que para a realização destes projetos não existe a preocupação de escassez da matéria-prima, fato enfraquecedor da ideia de construções sustentáveis (emprego de material reciclado).

Existe a falta de regulamentação para triagem dos materiais de construções voltados a reciclagem do RCR (Resíduos de Construção e Demolição), recentemente, por meio de decreto foi regulamentado uma logística reversa para resíduos sólidos. Considera-se que por volta de 88% a 95% dos resíduos de construção e demolição são de interesse para a reciclagem como agregados para a construção civil. Com essa possibilidade, não somente de descarte, atribui-se uma função do gerenciamento dos resíduos sólidos por parte da engenharia de demolição, com a possibilidade de reciclagem.

O custo do produto reciclado é bem menor que o agregado natural e automaticamente barateia os industrializados, que demandam em sua maioria, a extração de recursos naturais e a produção nada sustentável. Isso quando há previamente investimento de maquinários e mão de obra especializada. “A comparação, feita em meados de 2008 com técnicos e alunos da USP (Universidade de São Paulo), mostrou que o produto reciclado tem uma consistência igual ao produto convencional, ou seja, mesmas características de medida, peso e durabilidade”, relata Perla Lopes.

“Utilizo sempre o entulho em todas as minhas bases de alvenaria, por exemplo: numa residência, em que colocarei os armários planejados na cozinha, gabinetes de área de serviços e banheiros, sempre faço uma base de alvenaria para apoiá-los. Essa base é sempre preenchida pelo entulho das demolições. A base de alvenaria funciona não só como suporte dos gabinetes dos armários planejados, mas também para embutir os canos de esgotos e para aparafusar os próprios gabinetes”, comenta Nabuosuke.

Ela acrescenta que o entulho também é utilizado em seus projetos para fazer bases de jardins, patamares, nivelamento de pisos/rampas ou algum detalhe. Além disso, as esquadrias de madeira de demolição também são muito usadas. Portas e janelas antigas, que têm tamanhos fora dos padrões atuais, são reutilizadas para novas construções ou decorações no estilo rústico.

Para a reutilização, primeiro analisa-se as esquadrias, para ver se não há cupins, por exemplo, depois vem o tratamento da madeira que serve para vários fins, desde a função original até em painéis decorativos. Materiais de reciclagem são utilizados para fabricação de móveis e divisórias, como garrafas de plástico e vidros. “A sustentabilidade ainda é um assunto delicado no Brasil, mas as pessoas estão muito mais conscientes da importância do recolhimento e separação de lixos limpos. Inclusive casas de baixa renda estão sendo construídas com paredes de garrafas PET”, finaliza a arquiteta, Alessandra Garcia Nabuosuke.

A alvenaria de demolição requer investimento em equipamentos que já fazem a separação dos materiais, como as ferragens, além de mão de obra especializada e local adequado para armazenamento. Segundo as empresas de demolição, isso encarece a reciclagem e não permite preços competitivos. Mesmo sendo ainda inviável, não deixar de ser uma opção futura mais sustentável para o Brasil.

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